As distinções com Nobel de Economia atribuídas a Daniel Kahneman, em 2002, e mais recentemente a Richard Thaler, em 2017, fazem parte de esforços de pesquisa que enfatizam a questão do indivíduo na tomada de decisões. Para indivíduos mais céticos, discutir aspectos comportamentais em finanças e economia pode ser um incômodo cada vez mais frequente, e talvez até inevitável. A esse respeito, traços de personalidade das pessoas encarregadas de tomar decisões em diferentes níveis, desde o corporativo até o individual, apresenta-se aspecto merecedor de especial atenção. 

Um dos traços de personalidade mais abordados na literatura é o narcisismo. Assim, mesmo que possa parecer surpreendente, parece existir uma ligação entre narcisismo e aspectos econômicos, pelos menos é o que tanto a mídia financeira, quanto pesquisadores afirmam. Em síntese, a premissa de que decisões podem, de fato, ser emocional ou automaticamente tomadas, faz da personalidade do indivíduo aspecto indubitavelmente relevante.

Pessoas narcisistas acham que sabem mais e melhor; elas tendem a ser assertivas e excessivamente confiantes sobre sua inteligência e sua capacidade de julgamento. Notáveis por seu carisma, eles podem progredir rapidamente nas estruturas corporativas, e tendem a ser notadas e frequentemente favorecidas pelos altos escalões da organização, frequentemente para recuperar as empresas e organizações que se encontrem enfrentando problemas. Uma vez considerado como falha de personalidade, o narcisismo agora é visto como uma dimensão fundamental da personalidade (em diferentes graus) em todos nós, e um dos traços mais influentes em se tratando de processar informações e tomar decisões.

No nível da companhia listada as questões que envolvem a personalidade narcisista interessam especialmente ao entendimento das atitudes do diretor executivo (CEO), e como o conselho de administração trabalha com essas questões. Assim o narcisismo do diretor executivo (CEO) é uma importante área de pesquisa devido às implicações estratégicas de como esse traço de personalidade multifacetado afeta o comportamento do CEO. Indivíduos altamente narcisistas acreditam que podem aprender com a experiência melhor do que outros ao seu redor, eles buscam afirmação contínua de sua auto-visão inflada, exibindo sua superioridade, desvalorizando os outros e reagindo agressivamente a eventuais críticas. 

Os CEOs altamente narcisistas podem ser frustrados pela sua experiência própria. Eles podem ainda desmerecer ou desconsiderar aconselhamentos e experiências valiosos de outros indivíduos, como membros do conselho de administração. Atitudes como essas podem exercer impacto significativo no processo de tomada de decisão da empresa e na forma segundo a qual o conselho administração funciona, ou mesmo deixa de funcionar. O narcisista pode até rejeitar aconselhamentos de outros, o que no contexto da alta administração pode comprometer a execução do papel a ser exercido pelo conselho de administração, que inclui apreciar decisões sob a responsabilidade do CEO.

A literatura de finanças documenta que decisões corporativas dependem dos modelos cognitivos, da personalidade, do conhecimento, dos valores, das tendências, das familiaridades e das preferências dos executivos. O fator personalidade merece destaque, especialmente devido a um grupo de personalidades conhecidas como Dark Tetrad, que engloba traços como narcisismo, maquiavelismo, psicopatia e sadismo. Esses traços podem induzir comportamento aético e oportunista, em consequência do déficit de empatia.

Desses traços, o narcisismo merece destaque, pois é considerado o mais aceitável, uma vez que está relacionado a grandiosidade, auto-importância, opiniões pessoais infladas, autoridade, exibicionismo, superioridade, vaidade, exploração, senso de direito, autossuficiência, desejo de poder, falta de empatia e busca pelo reconhecimento e elogio. Além disso, é um traço relacionado a executivos de alto escalão, especialmente CEOs, pois as características desse traço podem auxiliar o indivíduo a atingir altas posições, vis a vis a constante busca por dominância, autoridade, poder, e reconhecimento, características de cargos de alto escalão.

A literatura aponta exemplos de executivos com altos traços narcisistas, entre eles: Bill Gates, Andy Grove, Steve Jobs, Jeff Bezos, e Jack Welch. Esses executivos são caracterizados como possuidores de grande visão, mas também tendem a: não manter atitude receptiva a críticas e sugestões, falta empatia, elevada propensão a competir. Isto induz CEOs narcisistas a atitudes de risco, mas frequentemente ignorando o custo daí decorrente.

A literatura na área de negócio ainda se apresenta inconclusiva quanto ao efeito da presença de um executivo com traços narcisistas na alta gestão, i.e. quais seriam os efeitos líquidos para as empresas a que estão vinculados. Há um recente debate ao redor do CEO narcisista, se ele contribuiria para geração de vantagem competitiva, de longo e/ou de curto prazo. Isso porque os CEOs narcisistas tendem a se engajar em estratégias grandiosas, as quais podem ser interpretadas como estratégias arriscadas, e podem se envolver em atitudes oportunistas que pode desencadear em gerenciamento de resultados e fraudes corporativas, como no conhecido caso da Enron. 

O efeito de um CEO com um forte traço de narcisismo pode ter aspectos positivos e negativos: eles são mais ousados e muitas vezes podem melhorar a reputação da empresa, mas isso tem um custo, no local de trabalho ou em atitudes que podem reduzir a reputação e o desempenho da empresa no futuro.

Aqueles indivíduos que costumamos admirar como líderes também podem ser extremamente narcisistas. O que vemos inicialmente como visionário, autoconfiante, obstinado, charmoso e desafiador pode – no extremo – ser autoritário, arrogante, explorador, impulsivo e agressivo. Acaso não sejamos capazes de entender tais diferenças, podemos acabar por colocar em risco a continuidade de companhias. Entre pros e contras apontados na literatura, parece que narcisistas podem acabar até sendo contributivos para o sucesso da companhia, nas situações em que haja um conselho atuante o suficiente, e que o executivo seja capaz de exercer uma liderança transformadora, algo que não necessariamente ocorre. 

Em que pese a necessidade de pesquisas acerca do tema, especialmente em contextos para os quais ainda não existem evidências empíricas, como é o caso comunidade de negócios ao redor do mundo, há necessidade explícita de pesquisas. Até mesmo no ambiente universitário a questão do narcisismo de professores e alunos pode ser algo a ser considerado, tendo em vista o papel que futuramente os alunos das escolas de negócios mais reputadas desempenharão na sociedade. Até mesmo pela natureza deste artigo clínico, a intenção não é exaurir a discussão, mas pelo contrário, colaborar para que seja levada a cabo em diferentes níveis.